quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O que é a separação?

Este texto é uma tentativa de síntese de toda e qualquer situação de separação, abordando tanto sentimento quanto razão. Pede-se que se leia sem pressa, com toda a calma e todo o cuidado possíveis:

O DILEMA DA SEPARAÇÃO
(Guilhermo Brasil Rasquin, 23 de junho de 2008)

Vejo situações de separação como um tipo de motor de nossas escolhas: unir-me ou separar-me? Quando escolho por um ou por outro – entre me ligar ou me desligar de algo/alguém – traço os caminhos que desenharam o trajeto de minha vida como indivíduo até agora. E quando sinto que não posso escolher por mim? E quando certas situações me fazem parecer, por si, terem decisão exterior à minha capacidade individual de escolha?
Mesmo neste caso, o do dilema, trata-se de uma opção minha, e ela já está dada: me decidi por estar preso. Geralmente, quando isso ocorre, o decidir prender-me ao esperar-pela-escolha-que-parece-não-ser-minha situa-se no puramente individual através do desejo pessoal por algo que já em si não me pertence. E que talvez nunca me pertencerá, pois é mera abstração de meu querer individual, infinitude paradoxal de origem racionalizante, algo impertencível. Trata-se ironicamente de um problema insolúvel e cíclico que gira em torno de si mesmo unicamente em meu pensamento, tendo como centro e fonte de movimento o simples fato de eu sozinho desejar que seja girado. É ter o sofrimento, a angústia, a esperança, o desejo, fazendo violenta pressão equânime para ambos os lados de uma balança com base incerta, persistente em sua imobilidade. Ou aparentes e intensos desejos contrários pressionando, um de encontro ao outro, lados opostos de uma parede inerte de receio e dúvida que é, na verdade, o próprio desejo pré-desejado. O dilema é o decidir por estar preso ao próprio dilema.
Porque faço isso? Qual o motivo em querer me prender à minha própria hesitação? Talvez haja uma necessidade racionalizante do choque de personalidades dentro de mim para que uma escolha legítima seja feita. Como se dois reflexos espelhados, representando minhas opiniões racionalizadas extremas e rivais, se espremessem um contra o outro, fazendo nascer dessa batalha um Eu completo, indeciso, paradoxal – contudo consciente de que a terceira possibilidade (senão a primeira), a da incerteza cíclica, já fora escolhida até mesmo antes de tal duelo amalgamático.
Em situações de separação há uma sensação criada por mim de haver outro-que-não-eu-decisivo, uma tentativa pessoal de escapar do individualismo. Crer nessa aparente sensação leva-me ao âmago do dilema.
Chamo separação o momento decisivo de optar entre escolher ou não essa dúvida (o dilema). É quando me dou conta de que algo/alguém já em si não me pertence (nunca pertenceu e nunca me pertencerá) que me vejo, por costume de apego materialista, no dever de escolher entre escapar do dilema ou optar por me prender a ele. Sendo que, quando tento aparentar nada escolher, na verdade decido mergulhar no dilema em toda sua profundidade.

Qual a importância da leitura?

Redação para concurso público da Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo (13 de Maio de 2006):

A LEITURA EM NÍVEIS PESSOAL E SOCIAL

A habilidade da leitura exerce importância fundamental no mundo globalizado. Isso deve-se à vasta gama de possibilidades que ela proporciona, basta refletirmos um pouco e podemos listar muitas vantagens oriundas do hábito de ler. Saliento destas, duas implicações essenciais decorrentes da leitura: a capacidade de abstração para melhorar a compreensão e a abertura comunicativa com o mundo frente às diversas linguagens. Ambas unem o saber ler individual ao social.
O ser que lê carrega consigo o poder de estruturar melhor seus pensamentos através da escrita, em uma relação de proporcionalidade entre o nível de saber ler e a capacidade de se expressar por escrito. Assim, quanto mais freqüente e variado é o exercício da leitura, maior é a habilidade de estruturar suas abstrações reflexionantes de forma visual. Um leitor bom preocupa-se com o bom escrever, possibilitando límpida interpretação de seus anseios em registros para posteriores leituras.
Além disso, o hábito de ler em diversas linguagens abre as portas da comunicação do leitor/ escritor para o mundo, à medida que o abismo entre o seu espectro compreensivo e o do bombardeio lingüístico contemporâneo vai-se esvaindo. Daí a descoberta libertadora do leitor para com o mundo: através da leitura social, e não apenas da simples leitura alfabética, o ser que lê escolhe com mais facilidade, torna-se independente.
Destarte, escrever para registrar o raciocínio e saber interpretar as múltiplas linguagens da atualidade são apenas duas das infindáveis implicações que têm a leitura sobre o desenvolvimento humano. Um aspecto, mais intimista, relacionado a seus pensamentos; o outro, sócio-interacionista, pois relaciona a leitura pessoal à social. Ambos indissociáveis e necessários de constante atualização.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Qual o verdadeiro valor?

Para alguns, a pergunta faz todo o sentido. Isso ocorre, quiçá, porque crêem que exista uma resposta.
Para outros (aqueles que questionam sobre o que seria "verdadeiro" e o que seria "valor"), talvez nunca seja encontrada resposta e, por isso, não faria sentido tal pergunta. Vamos pensar como eles para tentar entendê-los:

Tio Ari - Qual o verdadeiro valor?
Pirro - O que é "verdadeiro"?
Tio Ari - Verdadeiro é aquilo que é. É o oposto de "não-verdadeiro".

Aah! Que explicação maravilhosa. É o tipo de resposta perfeito para que Pirro faça o Tio Ari enlouquecer. Basta que Pirro pergunte "o que é ser?" (forçando Tio Ari a inventar explicações infinitas) e questione se "tudo que é é verdadeiro?" (forçando Tio Ari a tentar convencê-lo dos motivos). Tio Ari complicar-se-á com sua própria resposta, notando em seu discurso uma crença sem sentido universal, já que nunca convencerá Pirro (ou talvez nunca convencerá a si mesmo).
Digamos que Tio Ari sinta que suas respostas e explicações sejam, no fundo no fundo, meras asserções de convencimento utilizadas como forma de poder sobre o interlocutor. Ou seja, Tio Ari, quando responde perguntas, deseja mostrar um conhecimento que prega ser verdadeiro e tenta exercer seu poder inteligente sobre Pirro. Para isso, basta encher de explicações como forma de tentar convencê-lo.
Acontece que, quando Pirro pergunta, ele acaba exercendo seu poder de não-convencimento. Tio Ari pode se dar conta de que suas respostas não convencem.
E essa é uma maneira de não deixar que ninguém nos force seu poder: duvidar. Não duvidar apenas com rebeldia, mas como um jogo de raciocínio, em que o duvidador talvez deseje muito se convencer, mas o persuador teria que utilizar estratégias muito convincentes mesmo.
Outra alternativa estratégica que não irrita tanto o persuador e poupa o duvidador de escutar muitas explicações cansativas é a da adiaforia: não ter interesse.
Muitas outras técnicas podem ser encontradas no livrinho de Schopenhauer "A arte de vencer um debate sem ter razão" ("Erística"), em que ele ensina exatamente o que diz o título, e ainda mostra como esquivar de ataques retóricos.
Se estudarmos ainda os céticos pirrônicos, os sofistas, a academia nova platônica (e outros), veremos que a utilização dos discursos como persuasão de valores não é coisa recente.
Na arte temos esse ato de pôr em dúvida, mas como um processo criativo, uma maneira de fugir das regras e dos costumes. São exercícios de criatividade que convidam o apreciador a viajar na obra, a colocar no pensamento o “e se...”. E se não existir linguagem... E se não tivermos certeza de nada...

sábado, 10 de janeiro de 2009

A vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Muitas vezes flagro conhecidos meus definindo-se, consciente ou inconscientemente, de maneira semelhante ou idêntica a de um estereótipo já convencionado artísticamente, assim como reconheço em personalidades artísticas perfis psicológicos semelhantes ou idênticos aos de conhecidos meus.
Afinal, quem imita o quê?
Confundo-me, quando vejo no comportamento de minha coleguinha de faculdade a Capitu de Machado de Assis, ou reconheço no amiguinho de festas o Capitão Rodrigo. Por outro lado, noto em Gregor Samsa um quê da personalidade de meu pai, ou todos os traços de meu primo nos gestos de Philip Carey (ainda mais quando surgem Mildreds para atormentar); quando meu tio se define como um Tarzan, então, é um sarro.
Conheço a psicologia filosófica (ou tento conhecer) de E.T.s, Forrest Gumps, Capitães Nascimento... tanto quanto as de meus familiares.
É realmente complicado responder a pergunta, mas eu afirmaria que um imita o outro e o outro imita o um. Ou, analisando por outro viés, posso definir que ninguém imita ninguém. Um transforma o outro e ambos se misturam.
Quando se cria uma personalidade, se faz arte. E se faz vida também. Pensa-se ser de uma maneira, quando se está transformando um personagem já existente em si mesmo ou no outro. Reconhecer perfis, e não classificá-los, também é uma maneira de se criar personalidades - e transformá-las concomitantemente.
Quando se reconhece este processo criativo, unem-se o estético e o vital em um mesmo universo, onde arte e vida são uma coisa só. Fundem-se, transformando-se, os personagens em um amálgama heterogêneo do mundo do Eu e dos outros.