quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Qual o verdadeiro valor?

Para alguns, a pergunta faz todo o sentido. Isso ocorre, quiçá, porque crêem que exista uma resposta.
Para outros (aqueles que questionam sobre o que seria "verdadeiro" e o que seria "valor"), talvez nunca seja encontrada resposta e, por isso, não faria sentido tal pergunta. Vamos pensar como eles para tentar entendê-los:

Tio Ari - Qual o verdadeiro valor?
Pirro - O que é "verdadeiro"?
Tio Ari - Verdadeiro é aquilo que é. É o oposto de "não-verdadeiro".

Aah! Que explicação maravilhosa. É o tipo de resposta perfeito para que Pirro faça o Tio Ari enlouquecer. Basta que Pirro pergunte "o que é ser?" (forçando Tio Ari a inventar explicações infinitas) e questione se "tudo que é é verdadeiro?" (forçando Tio Ari a tentar convencê-lo dos motivos). Tio Ari complicar-se-á com sua própria resposta, notando em seu discurso uma crença sem sentido universal, já que nunca convencerá Pirro (ou talvez nunca convencerá a si mesmo).
Digamos que Tio Ari sinta que suas respostas e explicações sejam, no fundo no fundo, meras asserções de convencimento utilizadas como forma de poder sobre o interlocutor. Ou seja, Tio Ari, quando responde perguntas, deseja mostrar um conhecimento que prega ser verdadeiro e tenta exercer seu poder inteligente sobre Pirro. Para isso, basta encher de explicações como forma de tentar convencê-lo.
Acontece que, quando Pirro pergunta, ele acaba exercendo seu poder de não-convencimento. Tio Ari pode se dar conta de que suas respostas não convencem.
E essa é uma maneira de não deixar que ninguém nos force seu poder: duvidar. Não duvidar apenas com rebeldia, mas como um jogo de raciocínio, em que o duvidador talvez deseje muito se convencer, mas o persuador teria que utilizar estratégias muito convincentes mesmo.
Outra alternativa estratégica que não irrita tanto o persuador e poupa o duvidador de escutar muitas explicações cansativas é a da adiaforia: não ter interesse.
Muitas outras técnicas podem ser encontradas no livrinho de Schopenhauer "A arte de vencer um debate sem ter razão" ("Erística"), em que ele ensina exatamente o que diz o título, e ainda mostra como esquivar de ataques retóricos.
Se estudarmos ainda os céticos pirrônicos, os sofistas, a academia nova platônica (e outros), veremos que a utilização dos discursos como persuasão de valores não é coisa recente.
Na arte temos esse ato de pôr em dúvida, mas como um processo criativo, uma maneira de fugir das regras e dos costumes. São exercícios de criatividade que convidam o apreciador a viajar na obra, a colocar no pensamento o “e se...”. E se não existir linguagem... E se não tivermos certeza de nada...

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